No dia 12 deste mês, realizamos o projeto. Em certo sentido, saímos de vez dos nossos armários, só para entrarmos juntas em um único que fosse das duas, com direito a partições e divisórias para tudo, menos para a extensa coleção de sandálias e saltos altos.
Passamos a morar juntas.
Eu e ela, como um casal, mais oficial do que antes. Se ainda podíamos esconder, de uma forma ou de outra, nossa relação, agora já não tínhamos como. Mesma cama, mesmo chuveiro, mesma casa, mesmas contas para pagar.
E o mesmo, mesmíssimo amor.
Também foi no dia 12 que fizemos um ano de namoro. Um ano árduo, complexo, cheio de neuras e medos, mas um ano delicioso, precioso, inacreditável, também.
No dia 12, fez um ano que encontrei o amor de minha vida, no lugar mais inesperado (e, segundo alguns, mais inapropriado) do mundo. Encontrei o amor de minha vida em uma pessoa que tem mais em comum comigo do que qualquer ex-namorado conseguiu ter. Uma pessoa especial, inteligente, criativa, desbocada, atraente e linda, por dentro e por fora. Foi preciso vencer inúmeros preconceitos meus para reparar em cada qualidade do modo certo. Foi preciso me rasgar por dentro, reconstruir valores e idéias, para poder saborear a delicada sintonia que existe entre nós.
Foi preciso me reinventar. E como é maravilhoso colher o fruto de toda essa mudança.
Fui encontrar o amor de minha vida nos braços (lábios, olhos, pernas, cabelos, pulmões, coração…) de outra mulher.
No começo, os maiores inimigos da nossa felicidade eram os meus próprios padrões morais, recalcados e repressivos, incapazes de absorver a possibilidade de encontrar prazer e ternura em relações menos ortodoxas. Simplesmente, havia muito conflito, muita confusão na minha mente. Sentir-se culpada por estar feliz era algo deprimente e desesperador. Eu não conseguia absorver o rótulo de homossexual, por um lado, mas também não conseguia entender como uma heterossexual convicta como eu poderia estar apaixonada por outra mulher.
A resposta, claro, é simples: eu não gostava de mulheres, eu gostava de uma em particular. Pode parecer pouco funcional tal diferenciação, mas a questão se resume a isso, no final. Não me sinto atraída por nenhuma outra mulher que não seja Pandora. E eu a amaria se ela fosse uma senhora, um alienígena, um homem, um avestruz (e eu devo agradecer, dia e noite, por ela não ser um avestruz; zoofilia, além de crime, é muito para o meu gosto provinciano).
Eu amo Pandora, hoje e sempre. Ser mulher é só parte do pacote. Parte que ela vem me mostrando sempre útil e deliciosa, é verdade, mas apenas mais uma faceta de uma relação muito mais complexa e edificante.
Há muito tempo estamos falando em relatar nossa história, que alguns amigos acham divertida e interessante ao grande público. Para inaugurar essa nova fase na nossa vida, damos o pontapé inicial em um blog conjunto. Que não é sobre lesbianismo, sobre as dificuldades da vida, sobre sexo ou sobre o cotidiano de duas mulheres femininas e feministas. É puramente, sobre amor e tudo aquilo que influencia e é influenciado por sentimento igualmente poderoso e misterioso.
Sejam bem-vindos, caso queiram nos acompanhar!
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